Mulheres no comando da ad tech

A indústria de publicidade digital e programática reflete um cenário já conhecido no mundo da tecnologia: a disparidade entre a presença de mulheres e homens no mercado de trabalho, sobretudo nos altos cargos. A desigualdade é inquestionável: quase metade (46,1%) das mulheres da indústria de tecnologia está estagnada nos cargos iniciantes, contra apenas 25,9% dos homens, segundo o estudo Women in Tech 2018. À medida que a idade avança, maior a chance de ficarem presas a cargos iniciantes em relação a seus colegas de profissão.

As mulheres representam apenas 20% dos profissionais do setor de tecnologia brasileiro, de acordo com números do PNAD 2016. Discrepância que traduz padrões culturais que acabaram por incentivar meninos a realizarem atividades desafiadoras e de raciocínio lógico, renegando às meninas a execução de atividades do dia a dia, tanto que ainda são minoria nos curso de engenharia, matemática e computação. 

A boa notícia é que os primeiros passos para derrubar essas barreiras estão sendo dados, graças a movimentos feministas no mundo todo, incluindo iniciativas de empoderamento feminino na tecnologia, como projetos que levam conhecimentos de programação às meninas já na infância.

Para Riza Soares, diretora-geral da smartclip, esses movimentos deram voz à questão: “um reflexo disso foi o crescimento de 200%, na busca do Google, pela palavra ‘feminismo’. Isso demonstra um interesse da sociedade pelo tema”, comenta, lembrando que tal avanço ainda  não foi suficiente para uma mudança mais profunda.

O caminho a percorrer em busca da igualdade ainda é longo, por isso o ExchangeWire Brasil reúne aqui visões e perspectivas de três mulheres inspiradoras da indústria: Riza Soares, Lara Krumholz e Alexandra Mendonça. Além do gênero, elas compartilham a conquista de hoje comandarem ad techs ou liderarem áreas de publicidade digital de grandes empresas. Mais do que isso, elas acreditam na responsabilidade da indústria como condutora de uma rápida e urgente transformação em prol da igualdade.

Equilíbrio passa por políticas internas

Riza Soares, diretora-geral da smartclip: “Buscar equilíbrio entre a atuação da mulher e do homem no mercado de trabalho, seja para a equiparação salarial ou número maior de mulheres em cargos de liderança, requer reconhecer as diferenças inerentes de cada gênero, respeitá-los e ter políticas internas, que garantam que este movimento ocorra de forma ampla em toda a empresa. As empresas de tecnologia, principalmente as gigantes como Facebook e Google, estão preocupadas em avançar na busca desse equilíbrio. Vemos iniciativas para formação de mulheres na área de programação, com o objetivo de criar um ambiente mais diversificado e não predominantemente masculino. Isso acaba influenciando a indústria de tecnologia e internet como um todo. Não dá mais para virar as costas para o tema”.  

Reconhecimento por competências, não pelo gênero

Lara Krumholz, VP da DynAdmic para a América Latina: De maneira geral no mundo ainda tem grande desigualdade para mulheres, além dos direitos fundamentais e no mundo profissional, por exemplo, diferença de salário, acesso à educação, responsabilidades e participação em conselhos de administração. Acredito que a evolução diante dessa desigualdade está lenta demais: tanto que a ONU mostra apenas 8% dos países estão dirigidos por mulheres, em conselhos são apenas 16%. No mundo da tecnologia, não também está evoluindo muito: segundo a Forbes, as mulheres representam apenas 24% das posições na área de Ciência da Computação (enquanto eram 37% em 1995) e cuidam apenas de 11% das posições executivas na Silicon Valley. Se o objetivo é chegar a mais igualdade, acho que temos que rever os meios de atingir esse objetivo. Mulheres não precisam de mais eventos para “mulheres no negócio” e “mulheres executivas”, mas serem reconhecidas por suas competências sem necessariamente mencionar que é melhor porque é mulher. Acho que precisamos focar mais nas pessoas e nas competências do que no gênero se queremos atingir a verdadeira igualdade. Igualdade não é apenas um problema para mulheres, mas um problema para toda sociedade. Sem as mulheres, empresas, governos e equipes perdem 50% do seu potencial de talentos”. 

Os bons exemplos devem inspirar

Alexandra Mendonça, gerente do Mercado Livre Publicidade: “De fato, ainda temos poucas mulheres em cargos de liderança, mas vejo uma mudança gradual. ​A temática diversidade em gênero tem sido pauta em muitas empresas. Em viagem ao Vale do Silício, acompanhada de diversos CEOs e outros cargos importantes, falamos muito sobre tudo que ainda pauta a questão: o empowerment legitimado, o espaço conquistado e o cedido, as questões de conciliar a carreira com as outras tantas facetas da mulher – mãe, esposa, amiga, filha. Sabemos que tudo isso nos fortalece e faz querer ganhar mais e mais espaço.

Em tecnologia, realmente a predominância é masculina, mas temos bons exemplos para nos inspirar.​ São inúmeras ações em empresas para que as mulheres comecem a programar e realmente liderar áreas técnicas.​  Tenho o mesmo conselho para as mulheres que eu daria a qualquer profissional: invistam nas suas carreiras, se capacitem e não deixem de aprender. ​E principalmente deem espaço para outras mulheres. A história da competitividade ​entre mulheres precisa ser encarada de forma diferente: somos competitivas com nós mesmas em buscar sempre do nosso melhor, mas temos que vibrar com as conquistas femininas alheias. ​Isso é um bom começo ​para fazer com que nossas meninas e mulheres não se vejam em uma posição inferiorizada. Porque, tanto quanto os homens, elas são capazes de chegar aonde quiserem e em qualquer indústria, desde que se dediquem a isso”.